RPG’s são um dos meus gêneros favoritos de games.Passar dias em um mundo digital, conhecendo tudo que ele tem a oferecer e desvendando todos os seus mistérios nos mínimos detalhes é uma das experiências que eu mais valorizo em um vídeo game.
E vou te contar, a safra de RPG’s atuais está se saindo cada vez melhor. Hoje é possível escolher entre mundos pós holocausto nuclear infestados de monstros e organizações para militares, fuzileiros espaciais enfrentando uma grande invasão de outra galáxia e até mesmo os bons e velhos JRPG’s com suas histórias lineares e previsíveis e personagens que deixam de ser interessantes assim que saímos da adolescência.
Dragon Age Origins segue a linha de aventura de fantasia, e parece uma grande mistura de Dungeons N’ Dragons (o jogo de mesa, não o filme com Marlon Wayans) e Senhor dos Anéis, com batalhas épicas, feitiços burlescos e personagens com o qual é muito fácil se identificar.
E onde mais você tem a chance de dar uma sapecada em uma sensual bruxa do pântano?
Pois é, não é?
O enredo de Dragon Age: Origins é bastante simples a primeira vista.
Basicamente, seu personagem começa como uma pessoa normal em um ambiente diário, até que se torna um Grey Warden, membro de uma ordem de cavaleiros que possui a missão de combater a “Blight”, uma invasão de demônios dos subterrâneos e que ameaça exterminar toda a vida como a conhecemos.
Após uma grande batalha que acaba muito mal, você se vê como um dos últimos Grey Wardens e tem a tarefa de unificar os quatro maiores povos do reino (Humanos, Anões, Elfos e Magos) para ter alguma chance de sobreviver ao avanço da Blight..
De fato, o enredo não é nem de longe complexo e cheio de reviravoltas como um Final Fantasy (o que é um grande alívio, se me perguntar), mas existem fatores que modificam um bocado a experiência da história.
No início do jogo, você pode escolher a raça de seu personagem e sua origem. Pode ser um Humano da nobreza, um Elfo urbano, um Anão da casta mais baixa possível e por aí vai. A origem de seu personagem influencia como os coadjuvantes que serão encontrados ao longo da história irão reagir a sua presença.
Se escolher a origem de um Elfo da floresta, será mais bem recebido em uma tribo deste povo do que se jogasse com um humano, da mesma forma, se jogar com um mago, muitas pessoas o receberão com desconfiança, uma vez que feiticeiros não são inteiramente bem vistos neste mundo.
A possibilidade de escolher a origem de seu protagonista aumenta muito o fator replay do jogo. Cada classe de personagem possui uma introdução diferente, que dá o tom para o tipo de pessoa que seu protagonista pode ser. Não há uma origem definida como canônica e oficial para o herói do game e explorar as diversas variantes sem dúvida dá um sabor especial ao jogo.
É muito interessante também revisitar certas locações com um personagem diferente. Pessoas que você possa ter ajudado ao jogar com um humano podem ser parentes de seu personagem caso jogue com um elfo, o que muda drasticamente a percepção que você tinha destas pessoas ao encontrá-las pela primeira vez.
Dragon Age Origins é aquele game que assim que derrotamos o chefe final, já estamos pensando em recomeçar com um novo personagem e ficamos elucubrando quão diferentes serão suas interações com o demais elenco da história.
Ora, vida social é algo superestimado!
A apresentação do jogo tem seus altos e baixos.
Os gráficos são bons, mas poderiam ser melhores. Os modelos de personagens são bem construídos, mas possuem texturas simples e que não fazem jus a geração atual. Um avaliador mais mal humorado pode dizer que o Xbox original seria capaz de reproduzir os gráficos apresentados aqui e não estaria muito longe da verdade.
Também não existem muitas opções de customização para criar os personagens e muitas vezes seu protagonista pode acabar parecido com certos coadjuvantes. É um problema pequeno de fato, mas não deixa de ser desconfortável ver que o herói que você construiu não consegue ser muito diferente do Zé da cidade que vende armas de segunda mão.
Claro que existem detalhes bem interessantes no visual, os cenários são grandiosos, as roupas e armaduras possuem texturas bastante interessantes e únicas e o detalhe do grupo ficar sempre coberto com respingos de sangue ao final de uma batalha é bem bacana, mas depois dos gráficos quase fotorrealistas de Mass Effect, é meio difícil olhar para Dragon Age e não achar que seu visual poderia ter recebido um pouco mais de atenção.
O áudio no entanto, compensa todas as falhas do visual. A trilha sonora é impactante e épica e passa a impressão perfeita para uma aventura de fantasia medieval. Tenha em mente que não são as canções que depois cantarolamos no chuveiro, mas o game não seria a mesma coisa sem elas.
A dublagem é o grande chamariz aqui. Ao longo da aventura, será preciso conversar com uma tonelada de gente, por um bom tempo e todos tem muita coisa pra te dizer. Os personagens em sua quase totalidade possuem vozes muito bem escolhidas e os dubladores fazem ótimas interpretações, é possível aprender muito sobre a personalidade daquele com quem se está conversando só de prestar a tenção ao seu timbre e a forma como conversa.
Morrigan possui um tom de voz sedutor, mas ao mesmo tempo decidido e inflexível, que mostra a personalidade forte da feiticeira. Já Wynne possui a voz calma e ponderada, o que combina com sua experiência de vida e grande sabedoria.
Outro toque que torna a dublagem única é o uso de sotaques em determinados personagens. Leliana possui um leve sotaque Francês, que transmite uma certa inocência da personagem, assim como romantismo inerente a sua personalidade. Zevran por outro lado possui sotaque Espanhol, o que cai como uma luva ao seu jeitão de "amante Latino".
O diálogo é muito bem escrito e as longas conversas raramente se tornam cansativas. Na maior parte do tempo, temos vontade de esticar os diálogos pelo máximo de tempo possível e descobrirmos mais sobre nossos colegas e demais integrantes do elenco.
Um bom uso da dublagem são os momentos em que seus colegas de equipe conversam entre si. Tais conversas acrescentam bastante tridimensionalidade ao grupo e quebram aquele estigma de que seus amigos só mantem diálogo com você e ignoram um ao outro o resto do tempo, algo que as vezes se torna muito aparente em RPG's.
E é sempre divertido ver Morrigan e Leliana discutindo para ver qual das duas irá arrastá-lo para dentro de sua barraca primeiro...
A engine de jogo é muito parecida com Star Wars: Knights of the Old Republic e Jade Empire. Os pontos fortes destes games foram transcritos para Dragon Age Origins, assim como seus pontos fracos.
A maior parte do tempo você visitará localidades específicas e terá de auxiliar o grupo que lá reside para forjar uma aliança com eles. Normalmente, cada povo está com algum tipo de problema que eles não conseguem resolver sozinhos e é aí que você entra.
Mas nenhum problema possui uma forma específica para ser resolvido. Por exemplo, os Elfos da floresta estão sendo atacados por lobisomens (de verdade, não do tipo "Lua Nova") e suas opções aqui são atacar e exterminar os lupinos, aliar-se aos lobisomens e matar os Elfos, ou encontrar uma solução pacífica que beneficie a todos. As decisões tomadas não influenciam apenas o decorrer da história, mas também afetam a aprovação do grupo em relação a você.
Cada um dos seus companheiros tem uma opinião a seu respeito e dependendo de suas atitudes, eles podem admirá-lo ou desprezá-lo com o passar da história. Altos níveis de aprovação farão com que seus colegas tenham um desempenho muito melhor nas batalhas e abre a possibilidade de romances com alguns deles, mas se tomar muitas decisões ruins, alguns de seus companheiros podem abandonar o grupo ou tentar matá-lo em certos momentos da história.
Diga-se de passagem, na primeira vez que se joga Dragon Age Origins é bastante difícil terminar sem que um de seus amigos se rebele ou abandone o grupo, o que se torna um ótimo estímulo para rejogar o game inteiro e tomar as decisões certas para manter a equipe unida.
Agora falemos do sistema de combate, que é o ponto fraco do game.
As batalhas aqui funcionam como em KOTOR, você decide qual ação o personagem sob seu comando irá tomar e ele a executa. Se decidir atacar um inimigo, o personagem avançará contra o oponente mais próximo, o golpeará até que ele morra e então irá aguardar sua próxima ordem para continuar a luta.
Inicialmente não parece um problema, mas este sistema é bastante primitivo para os dias atuais. Muitas vezes seu personagem ficará parado no campo de batalha, recebendo dano dos inimigos até que você o ordene especificamente a atacar.
A inteligência artificial que controla seus amigos também deixa muito a desejar. Mesmo que estejam em alto nível e possuam os ataques especiais mais fortes do jogo, na maior parte das vezes eles se limitarão a enfrentar os inimigos com movimentos básicos e sem nenhuma estratégia. A menos que o jogador individualmente controle cada um deles ou os programe para usar ações determinadas em momentos específicos, eles pouco ou nada farão de útil nas batalhas.
Finalmente, os combates são bastante difíceis. Grupos de inimigos tem o péssimo hábito de atacar um único personagem em bando e muitas vezes você será cercado por quatro ou cinco oponentes e será massacrado sem pena, o que torna os combates em determinados pontos muito frustrantes e enfadonhos.
Dragon Age Origins é como o Joselito, não sabe brincar. Não é incomum precisar diminuir a dificuldade para "Casual" somente para poder derrotar um inimigo específico e conseguir avançar na história.
Dragon Age Origins possui falhas bastante notáveis em sua jogabilidade e que prejudicam um pouco a experiência do jogo, mas mesmo assim, este é um dos melhores RPG’s da atualidade.
As inúmeras possibilidades de se conduzir o roteiro, as Quests específicas que o ajudam a descobrir mais sobre seus colegas e a enorme extensão territorial a ser explorada criam uma experiência única, com pontos positivos que superam de longe os negativos.
O jogo tem seus problemas, claro, mas Gears of War também e isso não impediu a formação de um culto de nerds ao seu redor, que acreditam que bons jogos dependem de rifles com serras elétricas embutidas, barbas mal feitas e heróis que falam arrotando.
Eu prefiro meus games com menos Marcus Fenix e mais Morrigan, muito obrigado.
Nota do Amer: 8.5
Cheers!!!